O CDI protege da inflação. Mas protege do risco Brasil?

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Denise Carvalho

Sócio e head de câmbio da Convexa Investimentos, assessoria ligada ao BTG Pactual que tem mais de R$ 2,7 bilhões sob custódia, Emerson Junior avalia que a concentração no CDI cria uma segurança apenas aparente. O brasileiro evita a volatilidade, mas deixa renda, investimentos e patrimônio sujeitos aos riscos da moeda e economia locais – ou seja, o investidor conservador está mais exposto ao risco do próprio país do que imagina

Com o CDI a 13,9% ao ano, permanecer na renda fixa parece uma decisão difícil de contestar. A remuneração elevada preserva o poder de compra e oferece ao investidor a tranquilidade de evitar as oscilações de outros mercados. Emerson Junior, sócio e head da mesa de câmbio da Convexa, assessoria de investimentos ligada ao BTG Pactual, introduz nessa conta uma distinção importante. “O CDI protege da inflação, mas não do risco Brasil”, afirma.

A inflação reduz o valor do dinheiro ao longo do tempo, enquanto o risco Brasil alcança o patrimônio por diferentes caminhos. Ao concentrar suas aplicações no CDI, o investidor reduz a volatilidade da carteira, mas nunca a dependência do cenário doméstico. Uma aplicação atrelada ao CDI pode ser conservadora quando analisada isoladamente. Mas, se os demais investimentos também dependem do Brasil, o patrimônio como um todo continua concentrado no mesmo risco.

Segundo Emerson, apenas 1% dos recursos aplicados pelos brasileiros está no exterior, diante de 30% nos Estados Unidos e quase 80% no Japão. As antigas dificuldades de acesso já não explicam tamanha diferença. Quando ele começou a trabalhar com contas internacionais, em 2014, determinadas estruturas exigiam cerca de US$ 500 mil. Hoje, afirma, é possível começar com um envio de US$ 20.

A facilidade de acesso, porém, ainda concorre com uma renda fixa que estabeleceu um parâmetro difícil de abandonar. “Aqui, sem perder dinheiro, eu ganho 14% ao ano. Lá, sem perder dinheiro, eu ganho 3,5% ao ano”, diz Emerson ao reproduzir o cálculo feito por muitos investidores. O problema dessa comparação está em exigir que a posição internacional dispute rentabilidade com o CDI, quando sua função é acrescentar outra moeda e outra economia ao patrimônio.


Emerson Junior, sócio e head da mesa de câmbio da Convexa Investimentos

Juros versus o crescimento

O sócio da Convexa avalia que a atratividade do CDI produz um efeito semelhante sobre quem precisa decidir entre investir em uma empresa ou permanecer na renda fixa. Se o dinheiro rende perto de 14% ao ano sem os riscos de administrar funcionários, estoques, impostos e dívidas, abrir ou ampliar um negócio precisa prometer um retorno muito superior para justificar o esforço. “Esse negócio tem que pelo menos me dar uns 30% ao ano, porque, se ele me der 20%, não vale”, diz ele.

Ao tratar das consequências dessa escolha para a economia, Emerson abandona qualquer eufemismo. “Esse CDI é impeditivo, você não consegue fazer nada.” A taxa elevada ajuda o Brasil a atrair recursos estrangeiros, mas encarece o crédito, reduz os investimentos produtivos e limita o crescimento. Ao ser questionado sobre como romper esse ciclo, ele responde de forma direta e sem transformar o diagnóstico em uma solução fácil. “É um ajuste fiscal rigoroso.”

O dólar como proteção

A diferença entre buscar retorno e proteger o patrimônio sustenta também a maneira como Emerson apresenta o investimento internacional. “O dólar é o seu seguro, é literalmente um seguro. A gente fica sem o seguro de carro?”, questiona. A analogia retira a discussão do terreno das previsões cambiais, porque a contratação de um seguro nunca depende da certeza de que ocorrerá um acidente.

Seguindo essa lógica, o dólar nunca precisa superar o CDI todos os anos para justificar sua presença na carteira. A posição internacional cumpre seu papel ao reduzir a exposição exclusiva ao real e à economia brasileira, mesmo durante os períodos em que a renda fixa local apresenta um retorno maior. O investidor deixa de tentar descobrir a próxima cotação e passa a avaliar quanto do patrimônio precisa responder a um cenário diferente.

Embora continue importante para remunerar o capital em reais e preservar o poder de compra, diz ele, o CDI nunca elimina os riscos associados à economia brasileira. Ou seja, ao evitar a volatilidade e concentrar todo o patrimônio no Brasil, quem se considera conservador pode estar mais exposto ao risco do próprio país do que imagina.

 

Esta análise foi produzida a partir da entrevista de Emerson Junior ao Blue Chip Talks. A conversa pode ser conferida na íntegra aqui.

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