Crédito Privado

Cashforce projeta R$ 4 bilhões por mês com avanço dos FIDCs de risco sacado sobre o crédito bancário

Por

Denise Carvalho

Fernando Marinari, fundador e CEO da plataforma, explica como empresas e gestoras capturam parte da margem dos bancos ao financiar fornecedores, por que os próprios bancos investem nesses fundos e quem responde pela dívida quando o comprador deixa de pagar

A Cashforce, plataforma de tecnologia para antecipação de recebíveis, movimenta cerca de R$ 2 bilhões por mês e pretende dobrar esse volume até o fim de 2027. O número ajuda a medir um movimento mais amplo. Grandes empresas sempre se apoiaram no prazo concedido pelos fornecedores. Agora, estruturam FIDCs para antecipar a eles esses mesmos pagamentos e ocupam uma parte do crédito antes concentrada nos bancos.

Fundador e CEO da Cashforce, Fernando Marinari acompanha essa mudança dos bastidores. A empresa opera no modelo white label. Fundos, securitizadoras e companhias usam sua tecnologia sob marca própria para oferecer a antecipação, muitas vezes sem o fornecedor saber qual plataforma está por trás da operação. O foco é o risco sacado, modalidade em que o crédito se apoia na capacidade de pagamento do comprador.

Segundo Marinari, a necessidade de financiar a cadeia de fornecimento sempre existiu. A mudança está na forma como as empresas passaram a enxergar essa demanda. “As empresas perceberam que tinha margem em cima da mesa, em várias frentes diferentes”, afirma. Essa margem corresponde ao spread bancário, que embute o custo do capital e da estrutura das instituições. Com tecnologia, operar a antecipação ficou mais barato, e as companhias passaram a capturar uma fatia maior desse ganho.

Dois choques aceleraram o processo. Na pandemia, os bancos recolheram crédito e expuseram a dependência das cadeias produtivas em relação a essas linhas. Depois veio o caso Americanas, que Marinari classifica como um ponto fora da curva. “Os bancos fecharam a porta do crédito, as empresas foram procurar crédito no mundo dos fundos, e os fundos não tinham estrutura tecnológica para poder estruturar essas operações”, relata. O episódio acelerou a mudança da própria Cashforce, que deixou o modelo de marketplace e passou a fornecer a infraestrutura para os financiadores.

O movimento carrega uma tensão evidente. Uma mesma companhia pode alongar o prazo de pagamento aos fornecedores e, na outra ponta, oferecer a antecipação desses recebíveis por meio de um fundo próprio. Marinari reconhece a controvérsia, mas sustenta que compras e financiamento costumam funcionar como áreas e negócios separados. Ele lembra o atacadista Martins, que há mais de 30 anos criou o Banco Triângulo para financiar sua cadeia. Hoje, avalia, a solução talvez fosse um fundo de investimento. Sobre o risco de abuso dessa posição, é direto. Se as empresas passarem a tratar o financiamento de forma exploratória, “isso não acaba bem”, diz, embora afirme desconhecer casos assim.


Fundador e CEO da Cashforce

Os bancos seguem como investidores

Na leitura de Marinari, os FIDCs avançam sobretudo onde o crédito bancário tem menos alcance. Plataformas apoiadas em bancos tendem a se concentrar em companhias listadas, com bom rating e informações mais transparentes. Os fundos atuam com mais facilidade no middle market, formado por compradores com faturamento de até R$ 10 bilhões por ano, e em nichos regionais ou setoriais.

Ele cita estruturas dedicadas aos fornecedores de um plano de saúde, a redes de supermercados no Sul, no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a indústrias de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. A mesma lógica vale para o crédito estudantil. Quando um fundo é desenhado para um segmento específico, “ele consegue, inclusive, trazer investidores que conhecem esse segmento” e que “não dependem de um comitê de crédito do banco” para avaliar a operação. Para Marinari, o fundo de investimento “virou o principal veículo de financiamento”.

Os bancos, porém, continuam no jogo. Marinari observa que as instituições financeiras investem em FIDCs, inclusive em operações que teriam dificuldade para avançar dentro de suas próprias estruturas de crédito. A captação também cresce, segundo ele. Uma gestora parceira da Cashforce passou de R$ 12 bilhões para R$ 16 bilhões sob gestão em um ano, e outra abre praticamente um fundo a cada 15 dias.

O investidor desses fundos, na avaliação de Marinari, é o profissional familiarizado com o segmento ou com a gestão. Em vez de aplicar num fundo bancário sem conhecer a carteira, ele “sabe em que momento entrar, em que momento sair”. A contrapartida está na proteção. Diferentemente do caso Master, em que o FGC cobre os investidores dentro dos limites da garantia, os cotistas de FIDCs não contam com esse mecanismo. Em caso de inadimplência ou quebra, a perda fica com quem investiu. Marinari tampouco detalhou a rentabilidade desses fundos em relação ao CDI.

Quem responde pelo calote

Para explicar a distribuição do risco, Marinari parte de um ponto básico. Ao vender a prazo, o fornecedor já concede crédito ao comprador. A antecipação pode ou não mudar essa exposição, a depender do contrato. Nas operações sem direito de regresso, o financiador compra o título e assume o risco do sacado. “Fornecedor, leva o dinheiro embora, vai cuidar da sua vida”, resume. Nas operações com direito de regresso, o fundo antecipa o valor, mas pode cobrar o fornecedor se o comprador deixar de pagar. Nesse caso, o fornecedor “fica pendurado ali tanto quanto o sacado”.

A escolha do modelo costuma caber a quem financia. Nos bancos, segundo Marinari, a situação do fornecedor é ainda mais desfavorável. A maioria dos grandes bancos evita descontar duplicatas e concede crédito com base na carteira de cobrança, com direito de cobrar o fornecedor se o sacado deixar de pagar. No risco sacado, muitas operações ocorrem sem regresso, o que protege o fornecedor numa eventual recuperação judicial do comprador.

Para o financiador, a qualidade da informação também pesa. Entre 60% e 70% das notas fiscais que entram nos sistemas de varejistas sofrem alteração de valor ou de vencimento, segundo dados da plataforma. Atrasos na entrega, devoluções, avarias e verbas comerciais mudam o valor e a data do pagamento. A integração com o sistema do comprador permite acompanhar essas mudanças e também sinais de deterioração. Atrasos e prorrogações podem surgir antes de um pedido de recuperação judicial. Quando o pedido acontece, a operação “corta na hora”. Marinari relata um único caso desse tipo na plataforma, o de um fabricante de produtos de limpeza.

A duplicata escritural, ainda em fase de testes operacionais, deve reduzir o risco de um mesmo título ser descontado em dois fundos, pois cada duplicata passa a ter identificação única. Marinari, porém, aponta os limites da novidade. “Isso não vai impedir que empresários de má-fé continuem emitindo duas notas fiscais para a mesma venda”, diz. Na visão dele, a diligência segue indispensável. “Você precisa continuar olhando o crédito como olharia qualquer outro crédito.”

Os planos da Cashforce

A própria Cashforce ilustra a velocidade do movimento. Segundo Marinari, o volume da plataforma cresceu 20 vezes entre um ano e um ano e meio, com uma equipe de 16 pessoas. Ele atribui o ganho de escala ao uso intensivo de inteligência artificial em suporte, implementação e integração de sistemas, embora a tecnologia ainda não esteja no código da plataforma. Cerca de 40% das operações já envolvem risco cedente ou títulos sem vínculo com um comprador específico. A empresa, segundo ele, gera caixa, cresce com recursos dos sócios e descarta, por ora, a entrada de investidores.

A meta de chegar a cerca de R$ 4 bilhões por mês até o fim de 2027 desconsidera uma frente ainda em desenvolvimento, a antecipação de contratos de fornecimento, aluguel e prestação de serviços de longo prazo. A proposta é financiar o fornecedor antes da entrega, para a compra de matéria-prima e insumos e a contratação de pessoal. Marinari reconhece que a modalidade carrega mais risco, pois a exposição se desloca do comprador para o fornecedor, e por isso o crédito tende a ser mais restrito.

Para quem investe, o avanço das empresas sobre o crédito amplia o leque de carteiras disponíveis e redistribui uma margem antes concentrada nos bancos. Também transfere para fundos, gestoras e cotistas parte do trabalho e do risco antes assumidos pelas instituições financeiras. Marinari resume essa equação com uma brincadeira que costuma repetir. “Todo mundo quer ser banqueiro, mas ninguém quer tomar o risco que o banqueiro toma, e nem o trabalho que o banqueiro tem.”

▶ Assista à íntegra da conversa com Fernando Marinari aqui.

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