O fim da escala 6×1 pode agravar a crise de mão de obra na construção civil e pressionar o cronograma de cerca de 900 mil unidades atualmente em construção no país. O alerta é de Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP, que vê a proposta avançar num momento em que o setor enfrenta dificuldades para contratar trabalhadores, convive com juros elevados e opera próximo de níveis recordes de atividade.
Segundo Petrucci, a preocupação vai além das relações trabalhistas. Boa parte dessas unidades já foi comercializada e possui prazos de entrega assumidos junto aos compradores. Na avaliação do economista, reduzir a jornada disponível em uma atividade intensiva em mão de obra pode pressionar a execução das obras justamente quando o mercado mantém centenas de milhares de unidades em construção simultaneamente.

“Como é que nós vamos mudar essa regra no meio do jogo?”, questiona.
Avalia que a dinâmica operacional da construção civil ajuda a explicar a preocupação. Em grandes centros urbanos, diz ele, parte da logística dos canteiros ocorre à noite ou aos sábados em razão das restrições à circulação de caminhões durante o dia. Algumas etapas da obra também dependem de jornadas complementares para preservar cronogramas e evitar atrasos. Qualquer redução relevante na disponibilidade de horas trabalhadas, afirma Petrucci, exigirá uma reorganização operacional que tende a aumentar custos e pressionar a entrega dos empreendimentos.
Quando o custo sobe, a habitação encolhe
Para Petrucci, a principal consequência econômica da medida pode aparecer no preço final dos imóveis. “Um aumento de cinco ou seis por cento no preço do imóvel tira milhões de famílias da possibilidade de comprar.” A análise ganha relevância num momento em que a habitação de interesse social responde por uma parcela crescente dos lançamentos imobiliários. Em São Paulo, cerca de dois terços das unidades lançadas em 2025 foram enquadradas no Minha Casa Minha Vida.
Na prática, custos mais elevados tendem a reduzir a capacidade de compra das famílias, especialmente das camadas de renda mais sensíveis ao valor das parcelas e às condições de financiamento. Para um setor que já convive com juros elevados e margens comprimidas, a pressão adicional sobre os custos amplia os desafios de acesso à moradia.
Pressão sobre Brasília
As preocupações já chegaram ao governo federal. O Secovi-SP levou o tema ao Ministério do Trabalho e defende que a construção civil receba tratamento específico caso a proposta avance. O argumento é que a atividade possui características operacionais diferentes de outros setores da economia. Ao contrário de segmentos que conseguem reorganizar turnos ou automatizar processos com mais rapidez, a construção depende de cronogramas longos, mão de obra intensiva e contratos firmados anos antes da entrega.
“Vamos continuar levando às autoridades, aos deputados e aos senadores os impactos que vão acontecer na nossa indústria.”
Defensores da redução da jornada argumentam que a medida representa uma demanda legítima dos trabalhadores e que ganhos de produtividade podem compensar parte dos impactos ao longo do tempo. Para Petrucci, porém, a discussão também precisa considerar os efeitos sobre a capacidade de produção de moradias em um país que ainda convive com déficit habitacional relevante.
