O futebol é a porta de entrada de um fundo multiesportivo de até US$ 200 milhões planejado por Caio Sanches, sócio da Titanium WMSE. A proposta prevê a aquisição de quatro clubes em mercados diferentes, a partir de uma captação âncora de US$ 10 milhões. O plano, ainda em estruturação, esbarra em obstáculos conhecidos de quem investe em clubes no Brasil. Muitos times têm torcida, marca e atletas valorizados, mas acumulam dívidas, não geram caixa e dependem de dirigentes pouco dispostos a ceder o controle.
O próprio Sanches se mostra cauteloso sobre a capacidade do mercado brasileiro de receber capital institucional. Mas, na estratégia do seu fundo, diz, a ideia é contar com times formados por perfis complementares. Um clube seria voltado à formação e exportação de jogadores, outro teria foco na disputa de campeonatos de alto rendimento e um terceiro seria ligado ao mercado europeu.
A lógica é a do private equity. O esporte atrai investidores interessados em comprar ativos por um preço considerado baixo, melhorar a gestão e realizar o ganho numa venda futura. O veículo deve ser constituído nos Estados Unidos, com a possibilidade de criar fundos setoriais para futebol, corrida, esportes de raquete e motorsport. O plano prevê dois anos para captar e aplicar os recursos, com saída dos investimentos no horizonte de sete a dez anos.
O apetite pelo setor tem precedentes recentes. Em fevereiro de 2026, Cristiano Ronaldo adquiriu 25% do espanhol Almería. Nos Estados Unidos, a venda do Boston Celtics foi aprovada em 2025 com valuation de US$ 6,1 bilhões, enquanto a mudança de controle do Los Angeles Lakers avaliou a franquia em cerca de US$ 10 bilhões. Sanches pondera, porém, que o mercado americano vive outra realidade, com o esporte tratado como investimento setorial há anos.
O futebol oferece a maior oportunidade em valores absolutos, mas o sócio da Titanium vê na corrida o maior potencial de valorização percentual. A tese passa por adquirir assessorias menores, reunir operações e profissionalizar a gestão. “O setor é um mercado super fragmentado, com empresas pequenas e sendo geridas de forma, não vou dizer amadora, mas sim passional”, avalia.

Caio Sanches – Sócio da Titanium WMSE
Quanto vale um clube
O tamanho da torcida, sozinho, não justifica o valor pago por um clube. Ele prefere associar o valuation a um plano de longo prazo, com premissas sólidas e projeção de fluxo de caixa descontado. Nessa conta, entram a qualidade das categorias de base, a procura de outros clubes pelos atletas e os resultados da formação ao longo dos anos. São sinais para avaliar a expectativa de futuras vendas. O executivo ressalva, porém, que o valor atribuído a um jogador pode depender mais de percepção do que de parâmetros técnicos. “O grande problema é que todo mundo acha que vai ter o próximo Neymar.”
Prestígio, visibilidade e desejo de pertencer ao negócio esportivo podem levar compradores a pagar valores difíceis de sustentar pelos resultados esperados. Por isso, alerta, “a hora que a emoção entra em campo, a racionalidade se perde um pouco”. Ele recomenda observar a trajetória da dívida, do EBITDA, das receitas recorrentes e do desempenho esportivo para verificar se o projeto evolui ou só consome aportes.
Os tropeços dos primeiros anos do avanço das SAFs, diz Sanches, deixaram lições para investidores e clubes. Na avaliação dele, uma transação precisa definir responsabilidades, ter uma gestão preparada e manter interesses pessoais fora da negociação. Nos clubes associativos, ressalta, o entrave pode surgir ainda nas negociações por conta das disputas políticas internas. É um risco para a tese que ele próprio pretende levar ao mercado. Como resume o sócio da Titanium, “a grande dor está no processo de estruturação”.
Este conteúdo foi produzido a partir da entrevista de Caio Sanches ao podcast do Blue Chip Talks, em conversa que pode ser conferida na íntegra aqui.
